segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Confiar ou não confiar?

Existe muita gente que só consegue confiar em alguém e manter uma relação, se tiver o controle absoluto de todos os passos do outro. E não há forma de ser diferente. Afinal de contas, como é possível confiar sem possuir? Para essas pessoas não existe outra possibilidade senão o monopólio e o usufruto exclusivo. Transformam-se em donos dos seus parceiros, senhores das vontades alheias, ditadores de regras. Tudo deve passar pelo seu crivo e aprovação, caso contrário, o tirano, simplesmente, surta.
Eles dizem que são ciumentos e, quando questionados dos seus rompantes, falam sem constrangimento que amam — e muito — e ponto. Quem sou eu para julgar as formas de amar? Estou aqui para falar que ciúme é uma coisa, e que desconfiança, é outra. Caminham juntos, decerto. Esbarram, tropeçam, invadem os espaços um do outro de quando em vez. Misturam-se e confundem-se facilmente. Até podem ser parecidos, mas são distintos.
Os dois são sentimentos de posse, com a diferença que um é controlável e o outro é controlador. Há quem diga que ter ciúme é bonito, que é demonstração de amor. Mas basta passar um pouco da medida que deixa de ser fofo, e vira invasão de privacidade, sufocamento. Enfim, uma linha ténue põe o limite entre o aceitável e o inconcebível.
O ciúme não deixa de ser um tipo de zelo, uma demonstração de que aquele ou aquilo nos é importante. Uma forma de dizer: “ei, eu gosto muito, chateia-me dividir e não quero ficar sem”. Temos ciúme dos nossos amigos, dos filhos, do parceiro. Do cachorro, dos livros, da colecção completa de CDs do nosso ídolo, e por aí... Tudo o que é importante para nós gera um sentimento de posse e, consequentemente, o medo da perda. Normal. É humano isso.
O problema é quando o ciúme passa a fronteira e sobre passa os porquês do amor. Também é humano, ainda que seja uma forma torturante de lidar com a vida. Quem desconfia vive à espreita do erro, à espera da mazela. Então, previne-se de todas as formas para que o outro não falhe e, caso haja falha, para que não seja tão devastadora. Até mesmo porque ela já é esperada.
Desconfiar de alguém é estar seguro que a outra pessoa tem razões para nos enganar, e por isso é preciso cercar-se de todas as possibilidades a fim de minimizar a injúria. Quem desconfia divaga entre o real e o imaginário, em busca de soluções em cima de problemas que nem chegaram a existir. Por insegurança. Talvez por desamor próprio. Só o controle absoluto sobre o outro garante a sensação de confiança.
Precisam ter a certeza que sabem tudo da vida do parceiro, quando, na verdade, ninguém sabe realmente quem é. Achamos que sabemos de nós, mas a cada curva descobrimos que somos diferentes. Mais fortes ou surpreendentemente mais fracos. Confiantes, desacreditados. Generosos, egoístas. Altruístas e levianos.
Estamos em construção, adquirindo traumas em forma de nós, enquanto desfazemos as amarras das frustrações passadas. Quantas pessoas não se sentiram sufocadas e migraram para outro relacionamento, mais leve e com menos cobranças? Quantos aguentam, de facto, e andam sob a linhagem? São perguntas onde as respostas pouco importam. Cada um sabe da sua vida e onde o seu calo aperta. O que eu penso sobre isso? Bem, de que adianta tanta posse quando, na verdade, ninguém pertence à ninguém, senão a nós mesmos?


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