sexta-feira, 11 de setembro de 2015

“Barco com mais de 300 imigrantes naufraga no Mediterrâneo”, “Guarda Costeira italiana resgata 24 corpos de imigrantes após naufrágio”. “Foto chocante de menino morto revela crueldade de crise migratória”.
Enquanto o mundo enfrenta a pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, enfrentas os teus questionamentos internos com a amargura das dúvidas salgadas.
Como viver sem ter vergonha de ser feliz num mundo que afoga crianças refugiadas de guerras? Que dor é essa que nos revolta e sufoca por dentro? Até quando a vida será uma luta de auto devoração sem fim? Quem são as vítimas? Onde acharemos os culpados?
Parece que vivemos num oceano de medo, lamúrias e desilusões, e estamos à deriva. A humanidade está a naufragar nela mesma. Está tudo estranho. Não tem mais graça viver no meio de tantos conflitos entre raças. Qual a explicação para matar o outro em nome de um Deus? Quantas guerras mais teremos que suportar por disputas de terra, poder e dinheiro?
E quem somos nós para julgar os pais desesperados que colocam crianças em alto-mar sem destino certo, ou aqueles que não têm condições de receber os refugiados?
Prestar a devida atenção a estas questões em si não é fácil. Isso lembra-me uma frase famosa de Ernest Hemingway que muita gente se incomoda ao lê-la: “Felicidade em pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço”.
Acredito, no entanto, que Hemingway não se referia apenas à questão de ter ou não maior Q.I. Inteligente é quem tem consciência da injustiça no mundo, de quantas pessoas são infelizes; é a maior sensibilidade do indivíduo em relação a tanta desumanidade e desigualdade; seria como ver — e observar — um idoso cansado puxar com esforço sofrido seu carrinho de sucata sob uma chuva fina enquanto nós vamos de carro para o trabalho. E também olhar o carro da frente jogar uma garrafa de água vazia pela janela e poluir o chão, e sentir-se indignado. Com tudo isso fica realmente difícil encontrar a felicidade plena.
É importante partilhar imagens que mostram nossa indignação pelas redes sociais. Chega a ser insuportável levar uma vida normal no escritório, no consultório ou na faculdade, e ainda saber que em muitos lugares pescoços são explodidos e crianças são enterradas vivas. Pessoas que se colocam em barcos, desesperadamente, e se atiram ao mar para fugirem de uma guerra civil.
Mas o mediatismo da internet, por outro lado, parece tornar algumas pessoas menos contemplativas. Ou por preguiça de ler e de se informar a respeito do assunto, ou por necessidade de ser o primeiro a comentar sobre uma notícia recente, deparamo-nos com todo tipo de desinformação ou comentários estúpidos e preconceituosos que em nada contribuem para a nossa vida.
Talvez, o que nos falta é observar a dor e o sofrimento do outro como “e se fosse comigo”. É fácil criar um julgamento quando não vivemos tal situação, por isso, precisamos olhar com mais afectividade e acolhimento antes de lançarmos as nossas certezas sobre o outro.
Falando em Hemingway, lembro-me do seu livro “O Velho e o Mar”. Nele, o velho pescador, que se sentia excluído na sua velhice solitária, lançou-se sozinho ao mar para provar que podia pescar um peixe grande. Na solidão do mar, encontrou-se a si mesmo e aprendeu que o sofrimento faz parte da vida, assim como as lutas e as batalhas físicas são necessárias para o nosso crescimento. Ao pescar seu espadarte gigante, descobriu que gostava dele, e se admirava pela sua força; mas o velho tinha que ser mais forte e vencê-lo.
Porém, vencer não significa ser vitorioso, pois a vida traz-nos tubarões em forma de inveja, ganância e mentira que nos levam toda a nossa glória. É que o ser humano é contraditório; ele mata para ter paz, faz guerra para ser livre e grita para ter silêncio. E, depois da vitória, percebe que a glória e a riqueza são passageiras.
Por isso, o velho Santiago ensinou-nos que amor, coragem e compaixão, valores cada vez mais difíceis de serem encontrados na sua essência e vontade, são os sentimentos que garantem a nossa sobrevivência diante uma tragédia.

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