quarta-feira, 8 de julho de 2015

Reciprocidade

De hoje em diante será desta forma. Sob as minhas leis e  regras fica decretado que de mim receberão exactamente o que me derem. Na mesma ordem e proporção, com o exacto tamanho e ênfase. Aqueles que me presenteiam com amor serão cobertos pelos meus melhores sentimentos. Quem me dedicar o seu tempo e a sua atenção, esteja certo de que ganhará de volta a minha honrada dedicação e disposição. A palavra de ordem agora é: reciprocidade.
Já repararam como anda o mundo? A amabilidade perdeu sentido, virou absolutamente desnecessária e fora do normal. A gentileza tornou-se piegas, os favores são nada mais que obrigação de alguém que deve atender prontamente os interesses alheios. A cordialidade desapareceu na confusão insana da rotina esmagadora da cidade. A gratidão é mecânica, apressada e esquecida assim que vira a esquina. Querem para si sem dar em troca, e assim vão surripiando um pouco aqui e acolá as suas ansiosas vontades.
Não, eu não quero isso para mim. Eu quero uma vida inteira com os meus semelhantes, pessoas que me agreguem e não que me roubem de mim. Não faço questão de muito. A quantidade não me preenche. A qualidade basta-me. É isso. Eu quero pessoas que somem atitudes modestas sinceras, com singelos gestos, a confiança da mão estendida e do olhar afável. Eu busco a humildade dos aprendizes e a experiência dos sábios. Quem tenha tempo para me ouvir e também para me aconselhar. Alguém que se preocupe realmente comigo e com os meus, que esteja ao meu lado nas vitórias e nas derrotas, e quando nada puder fazer para me tirar do abismo, que se sente ao meu lado, me abrace e pura e simplesmente me faça companhia.
Talvez a simplicidade do que eu busco e admiro seja complexa demais aos olhos da superficialidade. Enquanto para mim esse é o maior tesouro, para os outros não faz o menor sentido. O mundo está cheio de pessoas querendo para si sem dar nada em troca, impondo que as suas vontades sejam feitas, que os outros sirvam prontamente e que eles próprios se sirvam quando queiram.
Não, não me façam perder o meu tempo, que já é pouco, com pessoas que só querem sugar o que eu tenho de luminoso e bonito, extorquindo sorrateiramente da minha prateleira tudo o que sou e que me pertence. Não roube nada de mim, por favor. Pede-me. Seja honesto comigo e eu te darei o meu mundo. Não me engane. Não me ludibrie. Não me faça de tonta. Se quer um bocado do meu amor, me regale um pedaço do seu. Ou a gente troca, ou nada feito.
Pronto. Assim seremos verdadeiros e confiantes uns com os outros. Coloquemos sobre a mesa o que podemos dar, o que buscamos para nos complementar, e que a reciprocidade seja a ordem — ou desordem da vida.
Quem aceita o pouco passivamente se afilia à mediocridade, se acostuma a receber menos ou absolutamente nada em troca. E as relações são feitas disso, de intercâmbio, de uma via de mão dupla entre acções e reacções, entregas e recompensas. Aquele que não queira doar, que se recolha à sua suposta suficiência e não exija do outro o que não se dá.
Atenção aos ladrões de utilidades, que nos roubam quando somos de alguma serventia. De hoje em diante permanece o amor, a amizade e a dedicação como moeda de troca. Aqui, nesta casa, só entra quem for convidado.


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