quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Certezas de nada

Não, eu não tenho certeza de nada. Nem imagino o que vai acontecer agora. Sei lá o rumo que as nossas vontades estranhas irão tomar, elas que de tão livres que são ousam atravessar a vida de modo a que descubramos sozinhos aqui, bichos simples e doces na noite alta. Nem desconfio onde isso vai dar, não tenho ideia do caminho a seguir.
Quanto tempo nos falta, sei tampouco. Nem o tempo suspeita. Só Deus sabe, mas o tempo divino é outro, não é? Acontece muito além das pequenas coisas cá em baixo. É o insondável, um olhar impossível, a eternidade de cada segundo. Melhor é não tentar contar. Mais certo é viver.
Se existir uma ordem secreta dos anjos, uma convenção dos santos, uma resolução divina para determinar encontros incríveis, nós estamos na fila. Na mira. Sondados pelo destino que nos convida a atravessar a rua a correr, sair à chuva, rasgar papeis velhos, passar o carro a frente dos bois e ver no que dá. No mínimo, os bois agradecerão o instante de remanso na lida só porque tu e eu nos encontramos.
Nesses dias de demolição vertiginosa de estima, de ternura e de entendimento, qualquer coisa estranha se dá quando nos achamos. Alguém, em algum lugar, fez algo bom porque duas almas acesas, num estado de franca compreensão, idênticas criaturas do contra, agitadores silenciosos pensando alto durante a madrugada e a falar baixo para não acordar os vizinhos se esbarraram por aí.
Os revólveres emperraram, as guerras cessaram, os ódios amainaram, os ímpetos de morte desapareceram! E isso é maior que o tempo demarcado, restrito! É tão grande que não cabe nos sessenta minutos que compõem cada hora, nas vinte e quatro horas de um dia, nos trezentos e tantos dias do ano. Extrapola, explode e nos divide em milhões de possibilidades espalhadas no tempo e no espaço.
Ah, se o resto do mundo tivesse um tempo próprio como o nosso! Se tudo que há debaixo do céu também obedecesse à nossa lógica simples as coisas seriam diferentes. Seríamos tu e eu e os nossos a confirmar a nossa inclinação profunda para a vida, trabalho, amor.
E o mundo seria aos poucos reconstruído. Tudo isso há de existir, mas não há aqui, por enquanto, a menor ideia de onde, de que jeito isso irá se dar.
Connosco, temos só essa alegria de quem encontrou o que queria da vida, essa vontade sincera de seguir adiante e nenhuma, nenhuma certeza além da que nos achamos para nos perder. E vice-versa.
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