sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Carta aberta ao meu corpo

Para o meu querido e único corpo:

Há uns tempos atrás deparei-me com uma citação acerca da nossa relação. Que me fez pensar muito. Dizia qualquer coisa do género: "Lembra-te que o teu corpo nunca se cansa de ti, independentemente da forma como tu o tratas." Foi então que eu percebi que tinha de parar de te tratar como um objecto. Preciso de pensar em ti como uma extensão de mim, como a minha essência. Não consigo explicar por palavras, mas acho que consegues entender o que te quero dizer. Este é o meu pedido de desculpas oficial para ti que nunca reclamas-te dos meus devaneios, ao longo dos anos.

Desculpa por nem sempre te ter entendido, apenas porque estava tão focada em te odiar.

Sinto muito porque sempre que me olhei no espelho desejei que certas partes do meu corpo desaparecessem.

Sinto muito por cada queda, hematoma, cortes que te infligiram.

Sinto muito porque sempre que eu olhava para o espelho não gostava do que via e chorei lágrimas de puro ódio contra ti.

Sinto muito por todas as vezes que te cobri porque estava descontente e constrangida pela forma como me olhas-te.

Sinto muito por te comparar a capas de revistas e imagens castigando-te por não seres assim.

Desculpa por muitas vezes te ter feito chegar ao limite, só porque eu estava determinada a mudar (quando muitas das vezes não tinhas muito para mudar).

Sinto muito por pensar demasiadas vezes: "Bem, isto é o que mereces."

Sinto muito por cada vez que esquivei-me de me divertir por causa de como me sentia em relação a ti.

Lamento por te tratar como um objecto descartavel, renovável, e sem valor.

Lamento por te punir quando não fizeste nada além de me manter viva.

Eu sinto muito por não ter apreciado os teus ossos fortes que nunca se partiram.

Eu sinto muito por não apreciar a força que tens nas pernas; pernas que me permitiram correr, nadar e andar e estar viva.

Eu sinto muito por não apreciar o quão saudável és, mesmo por vezes doente, tu consegues combater de modo a me fazer sentir melhor.

Eu sinto muito por não apreciar os braços; armas que poderão não ser tonificados, mas que me permitem abraçar os meus entes queridos com uma força que pode mover montanhas.

Eu sinto muito por não apreciar o teu estômago, que apesar de não ter abs tonificados, sinto dores como se tivesse feito 100 abdominais, quando dou gargalhadas.

Eu sinto muito por não apreciar a tua pele macia; pele que me protege e me mantém segura e aquecida e saudável e inteira.

Eu sinto muito por não cuidar melhor de ti, quando não fizeste nada para o merecer, mas cuidar de mim foi o teu único trabalho, o teu único propósito na existência.

Eu sinto muito por cada vez que eu olhava para ti, tudo o que fiz foi te tratar como um objecto punitivo, de ódio e de perfeição.

Deste dia em diante, eu comprometo-me a tratar de ti como personificação física da minha alma. Eu comprometo-me a tratar com Amor e cuidado que têm sido negligenciadas por todos estes anos, mas que genuinamente mereces de mim. Eu comprometo-me a manter-te saudável e a aceitar-te exactamente como és, neste momento. Eu comprometo-me a parar de desejar que sejas diferente. E ser grata por aquilo que és. 

Obrigado por nunca te teres cansado de mim, mesmo quando eu te quis destruir. Eu nunca vou ser capaz de te agradecer o suficiente, mas vou fazer o meu melhor, honrando cada dia, durante o tempo que me permitires viver.

Eternamente grata,
A tua alma <3









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