domingo, 22 de novembro de 2015

Ai... o Amor!

O amor é a maior ousadia da vida. É quando ela, abusada, ignora a morte à espreita, realiza, avança, provoca, acontece. Quem ama quer acordar cedo e viver até tarde. Amar é dar-se conta de que estamos vivos. É a intenção sagrada que nos põe sobre os pés de manhã, a saudade honesta, o trabalho de cada dia. É a noite, a lua e o susto de não estar mais só.
Amar é um desacato à autoridade dos pessimistas, mal amados, donos da verdade, descrentes da felicidade, vigias da vida alheia e toda a gente contra. Quem ama desobedece à lógica do um contra o outro, a fórmula do cada um por si, o vício odioso do confronto.
Sentir amor é o absoluto inesperado em tempos de pré-disposição para a maldade. Quem tem bravura para dar e receber amor desafia a selvageria e a morte. Tomados de ímpeto amoroso, os amantes esquecem que um dia também vão morrer. E quando por acaso se lembram, repousa mansa na sua lembrança a certeza de que ao morrerem permanecerão vivos do outro lado, a trabalhar pela eternidade do seu amor.
Existem pessoas que escolhem sofrer, penar, regar sentimentos daninhos, cultivar pragas que desgraçam o roçado aos poucos, em silêncio. Eu escolho viver. E o amor há de ser isso mesmo, quem sabe? O ofício de cuidar da vida. De plantas, flores, sonhos, pessoas, amar é cuidar bem da vida. Limpar-lhe as folhas, molhar a terra, fortalecer as raízes. Proteger, respeitar, servir. Florescer.
Numa noite dessas, do meio da sua solidão, alguém me escolheu para amar. Veio, tomou o meu coração nas mãos e eu entreguei-lhe o resto. Agora seguimos juntos, a preparar a nossa horta, a planear a nossa obra. Rompendo firmes os nossos transtornos. A construir possibilidades, a trabalhar pela vida que é boa agora e há de ser melhor amanhã.

Porque, afinal, quem ama não tem medo de trabalhar pelo amor. E o amor dá trabalho! Viver e amar dão muito, muito trabalho.

sábado, 21 de novembro de 2015

Uma questão de carácter

Cada um absorve e vive a vida de uma forma particular, mas, por alguma razão muito bizarra, é comum que se vejam indivíduos usando as próprias réguas para medir os outros. Posts e mais posts de brigas virtualmente homéricas tentam mensurar qual a dor é que maior e quem merece mais atenção. Uma estupidez sem fim, que renderá tanto fruto quanto discutir o sexo dos anjos.
O curioso é que a grande maioria dos que esbracejam contra tudo e todos parecem se contentar com os seus discursos despropositados. Param por aí. Criticam o governo, as empresas privadas, os cidadãos que não sabem votar, os partidos, a corrupção e qualquer pessoa que ouse cruzar-lhes os caminhos.
Agir, que é bom mesmo, nada.
A mesma pessoa que profere moralidade e baba regras na internet costuma não perceber que a única possibilidade de fazer com que a esse cenário tenha alguma chance de melhorar é olhar para dentro.
De que adianta comprar mil brigas na internet e depois pegar o carro, dirigir pelo acostamento, tratar mal o porteiro, deixar  lixo na rua, ou não devolver o troco que veio errado?
De que adianta criticar a corrupção nas licitações e depois vender sentenças, atestados médicos, monografias, carteiras de estudante ou comprar peças furtadas de carros?
Desejas um mundo melhor? A não ser que queira devotar a sua vida a combater frontalmente o Estado Islâmico, as milícias, as quadrilhas de tráfico e toda essa barbárie organizada, o jeito é agir no microcosmo individual, procurando ser bom, honesto, íntegro, propagador de consciência e educação.
Que de tanta tragédia e horror possam surgir reflexões profundas, sinceras e transformadoras.


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